O Livramento do Povo de Deus

 

O Dia do Senhor

Disse o profeta Isaías: "Naquele dia o homem lançará às toupeiras e aos morcegos os seus ídolos de prata, e os ídolos de ouro, que fizeram para ante eles se prostrarem, e meter-se-á pelas fendas das rochas, pelas cavernas das penhas, por causa da presença espantosa do Senhor, e por causa da glória da Sua majestade, quando Ele Se levantar para assombrar a Terra." (Isaías 2:10, 20 e 21)

Os que tudo sacrificaram por Cristo agora estão em segurança. Perante o mundo e em face da morte evidenciaram sua fidelidade Àquele que por eles morreu. Seu rosto, pouco antes tão pálido e descomposto, resplandece agora com admiração. Suas vozes erguem-se em triunfante cântico: "Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações. Portanto não temeremos, ainda que a Terra se transtorne, e os montes se abalem no seio dos mares; ainda que as águas tumultuem e espumejem, e na sua fúria os montes se estremeçam." (Salmo 46:1 a 3).

Enquanto estas palavras de santa confiança ascendem a Deus, as nuvens recuam, e se vêem a cidade celestial e que emana  de suas portas entreabertas, à sua glória.

Aparece então de encontro ao céu mãos segurando duas tábuas de pedra dobradas uma sobre a outra. Diz o profeta: "Os céus anunciarão a Sua justiça; pois Deus mesmo é o juiz." (Salmo 50:6). Aquela santa lei, a justiça de Deus, que por entre trovões e chamas foi do Sinai proclamada como guia da vida, revela-se agora aos homens como a regra do juízo. A mão abre as tábuas, e vêem-se os preceitos do decálogo, como que traçados com pena de fogo.

As palavras são tão claras que todos as podem ler. Desperta-se a memória, varrem-se de todas as mentes as trevas da superstição e heresia, e os dez preceitos divinos, breves, compreensivos e autorizados, apresentam-se à vista de todos os habitantes da Terra.

É impossível descrever o horror e desespero dos que pisaram os santos mandamentos de Deus. O Senhor lhes deu Sua lei; eles poderiam haver harmonizado seu caráter por ela, e conhecido seus defeitos enquanto ainda havia oportunidade para arrependimento e correção; mas, a fim de conseguir o favor do mundo, puseram de parte seus preceitos e ensinaram outros a transgredir. Esforçaram-se por compelir o povo de Deus a profanar o Seu sábado. Agora são condenados por aquela lei que desprezaram. Com terrível clareza vêem que se acham sem desculpas. Escolheram a quem servir e adorar. "Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que O não serve." (Malaquias 3:18).

Demasiado tarde vêem o fundamento arenoso sobre o qual estiveram a construir. Vêem que haviam estado a combater contra Deus. Ensinadores religiosos conduziram almas à perdição ao mesmo tempo em que professavam guiá-las às portas do paraíso. Quão grande é a responsabilidade dos homens no mister sagrado, quão terríveis os resultados de sua infidelidade!

Aparece o Rei dos Reis

A voz de Deus é ouvida no Céu, declarando o dia e a hora da vinda de Jesus. O Israel de Deus fica a ouvir, com o olhar fixo no alto. Têm o semblante iluminado com a Sua glória. Surge logo no Oriente uma pequena nuvem, aproximadamente da metade do tamanho da mão de um homem. É a nuvem que rodeia o Salvador. Em solene silêncio fitam-na enquanto se aproxima da Terra, mais e mais brilhante e gloriosa, até se tornar grande nuvem branca, mostrando na base uma glória semelhante ao fogo consumidor e encimada pelo arco-íris do concerto. Jesus, na nuvem, avança como poderoso vencedor. Agora, não como "Homem de dores", para sorver o amargo cálice da ignomínia e miséria, vem Ele vitorioso no Céu e na Terra para julgar os vivos e os mortos. "Fiel e verdadeiro", Ele "julga e peleja em justiça." E "seguiram-nO os exércitos no Céu". (Apocalipse 19:11 e 14).

Com antífonas de melodia celestial, os santos anjos, em vasta e inumerável multidão, acompanham-nO em Seu avanço. O firmamento parece repleto de formas radiantes – milhares de milhares, milhões de milhões. Nenhuma pena humana pode descrever esta cena, mente alguma mortal é apta para conceber seu esplendor. "A Sua glória cobriu os céus" e a Terra encheu-se do Seu louvor. E o Seu resplendor era como a luz." (Habacuque 3:3 e 4). Aproximando-se ainda mais a nuvem viva, todos os olhos contemplam o Príncipe da vida. Nenhuma coroa de espinhos agora desfigura a sagrada cabeça, mas um diadema de glória repousa sobre a santa fronte. O semblante divino irradia o fulgor deslumbrante do Sol meridiano. "E no vestido e na Sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis e Senhor dos senhores." (Apocalipse 19:16).

À Sua presença "se têm tornado pálidos todos os rostos"; sobre os que rejeitaram a misericórdia de Deus, cai o terror do desespero eterno. "Derrete-se o coração, e tremem os joelhos", "e os rostos de todos eles empalidecem." (Jeremias 30:6; Naum 2:10). A tremer, clamam: "Quem poderá subsistir?" Silencia o cântico dos anjos, e há um tempo de terrível silêncio. Ouve-se, então, a voz de Jesus, dizendo: "A Minha graça te basta." Ilumina-se a face dos justos, e a alegria enche todos os corações.

E os anjos entoam uma melodia mais forte, e de novo cantam ao aproximar-se ainda mais da Terra.O Rei dos reis desce sobre a nuvem, envolto em fogo chamejante. Os céus enrolam-se como um pergaminho, e a Terra treme diante dEle, e todas as montanhas e ilhas se movem de seu lugar. "Virá o nosso Deus, e não Se calará; adiante dEle um fogo irá consumindo, e haverá grande tormenta ao redor dEle. Chamará os céus, do alto, e a Terra para julgar o Seu povo." (Salmo 50:3 e 4).

"E os reis da Terra e os grandes, e os ricos, e os tribunos, e os poderosos, e todo o servo, e todo o livre, se esconderam nas cavernas e nas rochas das montanhas; e diziam aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós, e escondei-nos do rosto dAquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro; porque é vindo o grande dia da Sua ira; e quem poderá subsistir?" (Apocalipse 6:15 a 17).

Cessaram os gracejos escarnecedores. Cerraram-se os lábios mentirosos. O choque das armas, o tumulto da batalha "com ruído, e os vestidos que rolavam no sangue", silenciaram (Isaías 9:4 a 7). Nada se ouve agora senão a voz de orações e o som do choro e lamentação. Dos lábios que tão recentemente zombavam irrompe o clamor: "É vindo o grande dia da Sua ira; e quem poderá subsistir?" Os ímpios suplicam para que sejam sepultados sob as rochas das montanhas, em vez de ver o rosto dAquele que desprezaram e rejeitaram.

Aquela voz que penetra no ouvido dos mortos, eles a conhecem. Quantas vezes seus ternos e suplicantes acentos os chamaram ao arrependimento! Quantas vezes foi ela ouvida nos rogos tocantes de um amigo, um irmão, um Redentor! Para os que rejeitaram Sua graça, nenhuma outra voz poderia ser tão cheia de censura, tão carregada de denúncias, como aquela que durante tanto tempo assim pleiteou: "Convertei-vos dos vossos maus caminhos; por que razão morrereis?" (Ezequiel 33:11). Quem dera para eles fosse a voz de um estranho! Diz Jesus: "Clamei, e vós recusastes; porque estendi a Minha mão, e não houve quem desse atenção; antes rejeitastes todo o Meu conselho, e não quisestes a Minha repreensão." (Provérbio 1:24 e 25). Aquela voz desperta memórias que eles desejariam ardentemente se apagaradvertências desprezadas, convites recusados, privilégios tidos em pouca conta.

Ali estão os que zombaram de Cristo à Sua humilhação. Com uma força penetrante lhes ocorrem as palavras do Sofredor, quando, conjurado pelo sumo sacerdote, declarou solenemente: "Vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do poder, e vindo sobre as nuvens do céu." (Mateus 26:64). Agora O contemplam em Sua glória, e ainda O devem ver assentado à direita do poder.

Os que escarneceram de Sua declaração de ser Ele o Filho de Deus, estão agora mudos. Ali está o altivo Herodes, que zombou de Seu título real, mandando os soldados zombadores coroá-Lo rei. Estão ali os mesmos homens que com mãos ímpias Lhe colocaram sobre o corpo o manto de púrpura, e sobre a fronte sagrada a coroa de espinhos, e na mão, que não opunha resistência, um simulacro de cetro, e diante dEle se curvavam em zombaria blasfema. Os homens que bateram e cuspiram no Príncipe da vida, agora se desviam de Seu penetrante olhar, procurando fugir da subjugante glória de Sua presença. Aqueles que introduziram os cravos através de Suas mãos e pés, o soldado que Lhe feriu o lado, contemplam esses sinais com terror e remorso.

Com terrível precisão sacerdotes e príncipes recordam-se dos acontecimentos do Calvário. Estremecendo de horror, lembram-se de como, movendo a cabeça em satânica alegria, exclamaram: "Salvou os outros e a Si mesmo não pode salvar-Se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nEle; confiou em Deus; livre-O agora, se O ama." (Mateus 27:42 e 43).

Na vida de todos os que rejeitam a verdade, há momentos em que a consciência desperta, em que a memória apresenta a recordação torturante de uma vida de hipocrisia, e a alma é acossada de vãos pesares. Mas que é isto ao ser comparado com o remorso daquele dia em que o temor vem como assolação, em que a perdição vem como tormenta! (Provérbio 1:27.) Os que desejariam destruir a Cristo e Seu povo fiel, testemunham agora a glória que sobre eles repousa. No meio de seu terror, ouvem a voz dos santos em alegres acordes, exclamando: "Eis que este é o nosso Deus, a quem aguardávamos, e Ele nos salvará." Isaías 25:9.

Por entre as vacilações da Terra, o clarão do relâmpago e o estrondo do trovão, a voz do Filho de Deus chama os santos que dormem. Ele olha para a sepultura dos justos e, levantando as mãos para o céu, brada: "Despertai, despertai, despertai, vós que dormis no pó, e surgi!" Por todo o comprimento e largura da Terra, os mortos ouvirão aquela voz, e os que ouvirem viverão. E a Terra inteira ressoará com o passar do exército extraordinariamente grande de toda nação, tribo, língua e povo. Do cárcere da morte vêm eles, revestidos de glória imortal, clamando: "Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?" (I Coríntios 15:55). E os vivos justos e os santos ressuscitados unem as vozes em prolongada e jubilosa aclamação de vitória.

       Todos saem do túmulo com a mesma estatura que tinham quando ali entraram. Adão, que está em pé entre a multidão dos ressuscitados, é de grande altura e formas majestosas, de estatura pouco menor que o Filho de Deus. Apresenta assinalado contraste com o povo das gerações posteriores; sob este único ponto de vista se revela a grande degeneração da raça. Todos, porém, surgem com a elegância e vigor de eterna mocidade.

No princípio o homem foi criado à semelhança de Deus, não somente no caráter, mas na forma e aspecto. O pecado desfigurou e quase obliterou a imagem divina; mas Cristo veio para restaurar aquilo que se havia perdido. Ele mudará nosso corpo vil, modelando-o conforme Seu corpo glorioso. As formas mortais, corruptíveis, destituídas de prudência, poluídas pelo pecado, tornam-se perfeitas, belas e imortais.

Todos os defeitos e deformidades são deixados no túmulo. Restabelecidos à árvore da vida, no Éden há tanto tempo perdido, os remidos crescerão até à estatura completa da raça em sua glória primitiva. Os últimos traços da maldição do pecado serão removidos, e os fiéis de Cristo aparecerão "na beleza do Senhor nosso Deus", refletindo no espírito, alma e corpo, a imagem perfeita de seu Senhor. Oh! maravilhosa redenção! Há tanto tempo objeto das cogitações, há tanto tempo esperada, contemplada com ávida expectativa, mas nunca entendida completamente!

Os justos vivos são transformados "num momento, num abrir e fechar de olhos". À voz de Deus foram eles glorificados; agora tornam-se imortais, e com os santos ressuscitados, são arrebatados para encontrar seu Senhor nos ares. Os anjos "ajuntarão os Seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus." Criancinhas são levadas pelos santos anjos aos braços de suas mães. Amigos há muito separados pela morte, reúnem-se, para nunca mais se separarem, e com cânticos de alegria ascendem juntamente para a cidade de Deus.

 

Ellen G. White, O Grande Conflito, pág. 639.